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Luis Nassif

De como o real seria apreciado para sempre

Em 2007 meu amigo Otávio de Barros, economista-chefe do Bradesco, fez uma apresentação no Conselho de Economia da FIESP polêmica. Mas tão polêmica que, antes, me convidou para um chopp no Bar do Alemão, onde quebramos o pau sobre o tema.
O problema todo residia na chamada “análise prospectiva do presente congelado”. Algo como fotografar uma pessoa hoje e projetar o mesmo rosto para os próximos vinte anos.
De nada adiantava sustentar que o câmbio estava apreciado de forma irreal. Como, naquele momento de preços de commodities altos, a balança comercial era superavitária, bastava projetar aquele superávit infinitamente.
Não adiantava dizer que estávamos em um fim de ciclo de financeirização da economia mundial, que haveria em breve uma crise sistêmica mundial, que todos os sinais estavam no ar. O Banco Central já tinha resolvido tudo, tinha o câmbio sob controle e tudo o mais. E o Brasil tinha que se acostumar com real valorizado mesmo – para desespero de economistas com visão ampla da economia, como o Antonio Correa de Lacerda, Guilherme Dias, Antonio Barros de Castro entre outros.
Confira a apresentação:
1. No slide 3, Otávio tentava tirar o foco da discussão sobre câmbio e juros, qualificando-a de “irrelevante”.
2. No slide 6 dizia que os juros caminhavam para um dígito e o câmbio estava muito bem encaminhado pelo Banco Central, reduzindo sua volatilidade e aumentando sua previsibilidade. A Aracruz e a Sadia devem ter recebido essa apresentação.
3. No slide 7 transforma uma conversa com vagos “calçadistas de Franca” em uma formulação econômica: câmbio não importa, o que importa é o preço do couro. Naquela apresentação, perguntei ao Otávio como ele tinha conseguido abolir o fator preço do comércio exterior de um país que sequer podia recorrer a produtos de alta densidade tecnológica.
4. No slide 12 dizia que “as forças dominantes da apreciação do real não estão do lado da arbitragem da taxa de juros, mas sim nas transformações estruturais do balanço de pagamentos”, entre outros fatores otimistas.
5. No slide 14 Otávio “suspeitava” que as taxas de câmbio de longo prazo ficariam próximas às daquele momento.
6. No slide 21 diz que “produtividade não pode ser espúria (via preços), mas através da inovação e da produtividade. Incapaz de entender o papel do câmbio no primeiro impulso dinamizador das empresas, antecedendo os movimentos seguintes, de inovação e produtividade.
7. No slide 32 faz uma candente defesa do câmbio flutuante contra o câmbio fixo. Pouco antes da crise cambial de 1999 era um fanático defensor do modelo de câmbio fixo aplicado pelo Gustavo Franco.
Segue-se uma enxurrada de indicadores econômicos de países, dentro do chamado “modelo explicadinho”, em que se mostram milhares de partes mas não se consegue enxergar o todo.

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Respostas a este tópico

Nassif,
Ele pode ser seu amigo e ser super bem intencionado. Mas acabou a era em que os economistas-chefes de banco são opiniões relevantes.
O debate que vc quer tratar é fundamental, desenvolvimento só se faz com câmbio desvalorizado. Pois só assim é possível construir uma indústria forte e é a indústria a base do desenvolvimento. Todos os exemplos históricos mostram isso.
mas deveríamos ter discutido isso no fim de 2004, 2005. Aliás, antes de 2002, pois o PT deveria ter entrado no governo sabendo o que é desenvolvimento. Agora é passado. Felizmente o real vai se desvalorizar. Se será mais rápido e planejado ou mais lento e finalmente desruptivo dependerá da coragem do presidente Lula em admitir seus próprios erros.
Meus medos agora vão além. A própria democracia está em jogo depois dessa brincadeira.

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Meus caros

Cordiais saudações. O sistema financeiro nacional não vem contribuindo para que o Brasil se torne mais competitivo do ponto de vista produtivo. Pelo contrário, o mesmo forma uma espécie de “coro do medo” para que os juros permaneçam estavelmente elevados. Os spreads cobrados aos tomadores de recursos são de dois dígitos, inclusive para pessoas jurídicas. Imaginem se não tivéssemos o BNDES?

Quanto à suposta "irrelevância do câmbio" para a competitividade dos arranjos produtivos nacionais, trata-se do tipo de coisa que nenhuma pessoa poderia acreditar se não tivesse a cabeça entulhada de idéias insanas. Muitos ainda acreditam cegamente que o Estado precisa ter receita para gastar em moeda nacional. Não compreendem a função dos tributos num sistema econômico nacional porque não conhecem Finanças Funcionais e Abba Lerner. Acreditam também que o "preço do dinheiro" é determinado pelo balanço entre oferta e demanda. Chamam essa visão simplória de "ciência" para camuflar a ortodoxia.


Um abraço,

Rodrigo

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Rodrigo,
é isso!
Os bancos defendem cada coisa estranha...
já devem estar tramando uma receita desagradável para a crise...
Quem sabe algo para manter o dólar em 2 reais?
Já o trabalho da Fiesp foi muito bem feito. No trabalho fica muito claro a importância da indústria manufatureira e do câmbio para o crescimento.
Infelizmente parece que vamos ter que depender de novo da boa e velha crise cambial para retomarmos o rumo...

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