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"Redescoberta" de Minsky evidencia a especificidade histórica da economia

Tempos de crise são favoráveis ao reaparecimento de idéias de velhos economistas. Com esta última crise financeira global o caso é o mesmo: Minsky (que não tem NENHUM livro ainda traduzido no Brasil) está sendo reeditado nos EUA como um visionário capaz de compreender a natureza das crises financeiras. Talvez o que haja para se entender dessa redescoberta de Minsky em conjunto com essa crise é a relação profunda da teoria econômica com o ambiente político, econômico, cultural e institucional em que ela viceja. Embora almeje ser científica, a sequência de economistas que se preocuparam com a especificidade histórica dessas ciências (por exemplo, muito da escola histórica alemã e do velho institucionalismo americano) atesta para essa preocupação fundamental com os fatores extra-econômicos que influenciam a ciência. E mesmo dentro da linha histórica que, grosso modo, constituiu o "mainstream" do pensamento econômico (Senior, Mill, Marshall, Walras, Neville Keynes entre outros) a preocupação em separar a economia em diversos ramos (economia pura, aplicada,social, no caso de Walras), parece confirmar a hipótese de que, sem referência ao contexto histórico em que se desenvolvem, as teorias econômicas provam-se muitas vezes estéreis como guias práticos para a atuação dos economistas.

ARTIGO
Crise ressuscita Minsky
Obra de professor morto em 1996 sobre instabilidade financeira é reeditada nos EUA

MARCOS ANTONIO CINTRA
DA EQUIPE DE EDITORIALISTAS

A CRISE financeira internacional aumentou o interesse pela obra do professor Hyman P. Minsky (1919-1996). Seus dois principais livros, publicados inicialmente por editoras universitárias, foram reeditados pela McGraw-Hill, possibilitando o acesso a uma nova geração de economistas, analistas e investidores.
Vários analistas têm invocado suas idéias para tentar compreender a natureza da crise iniciada no mercado americano de hipotecas de alto risco. O colunista do "Financial Times", Martin Wolf, por exemplo, afirmou: "Eu reli a obra-prima de Minsky, "Stabilizing an Unstable Economy" [Estabilizando uma economia instável]. (...) Minsky estava certo. Um longo período de rápido crescimento, baixa inflação, taxas de juros baixas e estabilidade macroeconômica estimulou a complacência e uma maior disposição de assumir risco. A estabilidade levou à instabilidade".
Graduado em matemática pela Universidade de Chicago em 1941, Minsky realizou seu doutoramento em economia na Universidade Harvard, em 1954, onde conviveu com Alvin Hansen, um dos principais discípulos de John Maynard Keynes nos EUA, com Joseph Schumpeter e com Wassily Leontief.
A partir de releitura da "Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda", de Keynes, desenvolveu a "hipótese da instabilidade financeira". Para isso, analisou as decisões de investimento dos empresários movidas pelas expectativas de ganhos futuros. A concretização dessas decisões, porém, requer a disponibilidade de recursos financeiros. As fontes de financiamento podem ser internas (lucros retidos) ou externas (crédito bancário, ações etc.).
Os recursos externos permitem a expansão dos investimentos além da capacidade das fontes internas, na expectativa de obtenção de receitas superiores aos custos dos financiamentos. Trata-se, no entanto, de uma aposta de alto risco. As receitas esperadas são incertas, mas as dívidas possuem desembolsos predefinidos.
A expansão dos lucros sanciona as projeções passadas e realimenta as expectativas futuras. Isso contribui para a redução das margens de segurança dos empresários, que ampliam os investimentos, com maior endividamento.
Tangidos pela busca do lucro em um ambiente de expectativas otimistas, os bancos reduzem seus critérios de alocação do crédito e elevam a alavancagem (uso de capital de terceiros para ampliar suas operações). A introdução de inovações financeiras e a sua rápida difusão e imitação por outras instituições facilitam esse movimento expansivo do crédito e da liquidez, em geral, por meio de brechas nas restrições impostas pelas autoridades monetárias.
Com a expansão do endividamento, no entanto, as corporações ficam vulneráveis às alterações nos fluxos de lucros, nas taxas de juros e de câmbio etc. Quando as expectativas revertem, as estruturas financeiras construídas durante a euforia revelam-se insustentáveis. Os bancos procuram reestruturar seus portfólios, buscando ativos mais líquidos (títulos da dívida pública). Essa estratégia defensiva pode desencadear uma abrupta contração do crédito e, por conseguinte, falência em diversos segmentos.
Para Minsky, portanto, os períodos de instabilidade financeira resultam do aumento da fragilidade das estruturas de ativos e passivos dos agentes econômicos, engendrado durante a fase de prosperidade. O boom econômico, a "exuberância irracional", o endividamento excessivo, a busca pela liquidez, o pânico são fenômenos endógenos à própria dinâmica de uma economia monetária.
A fim de conter essa instabilidade intrínseca, faz-se necessária a adoção de regras para os mercados financeiros, tais como limites à alavancagem dos bancos, à interpenetração patrimonial entre os agentes financeiros e não-financeiros, à exposição a determinados setores e investidores etc. Caso contrário, os movimentos de euforia e de pessimismo tendem a ser exacerbados.
Essa dinâmica, descrita em seus livros, tem aparecido de forma recorrente no comportamento dos agentes econômicos e reproduzido nas reportagens dos jornais. Durante o período de crescimento (2002-2006), as famílias e os bancos americanos assumiram cada vez mais dívidas e mais complexas (inovações financeiras). A incapacidade de honrar os compromissos e a desvalorização dos imóveis e dos ativos lastreados nas hipotecas desencadearam o chamado "Minsky moment", em agosto de 2007. Os investidores começaram a vender as hipotecas e seus preços desabaram, introduzindo uma ampla demanda por moeda. Os bancos centrais foram obrigados a injetar montanhas de recursos para tentar preservar a liquidez dos mercados.
Infelizmente, não há nenhuma de suas obras editada no país, exceto um artigo publicado na revista "Economia e Sociedade", do Instituto de Economia da Unicamp ("Integração financeira e política monetária", 1994). As editoras brasileiras também poderiam aproveitar esse "momento Minsky" e publicar seus principais livros, facilitando o acesso de milhares de estudantes de graduação e pós-graduação em economia, administração e finanças.

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WELL, I WONDER...

Duvido que Morrissey se perguntasse, em uma de suas canções, sobre a natureza da atual crise financeira. Mas, como interessado em economia, não posso me furtar a observar os comentários de economistas como o prêmio Nobel deste ano, Paul Krugman, e o autor de um manual de macro muito utilizado hoje, Greg Mankiw.

Ontem, depois que o FED reduziu a taxa de juros nominal a valores próximos a zero, Mankiw postou em seu blog:

"Some would view this [ a decisão de baixar os juros a zero]as a radical ch… Continuar

Postado em 17 dezembro 2008 às 12:10 ‚Äî

Emmanoel

É FACTÍVEL SEPARAR ANALITICAMENTE A ECONOMIA DO PODER POLÍTICO?

Normalmente a história do pensamento econômico identifica o nascimento do pensamento econômico moderno como uma longa (e difícil) separação do discurso econômico dos discursos ético e político. Mesmo Adam Smith, no frequentemente citado primeiro parágrafo do Livro IV de "A Riqueza das Nações" observa que "Political economy, considered as a branch of the science of a statesman or legislator, proposes two distinct objects: first, to supply a plentiful revenue or subsistence for the people, or, mor… Continuar

Postado em 1 dezembro 2008 às 16:59 ‚Äî 2 Comentários

Emmanoel

Professor Carlos Luque sobre a dificuldade de achar a "fórmula" para o crescimento

Segundo o professor Carlos Luque, em artigo recentemente publicado, o Banco Mundial reconheceu a dificuldade em fornecer receitas gerais para promover o desenvolvimento de diferentes nações. Na verdade, o que o Banco Mundial mostra é haver mais dúvidas que soluções quando se trata da promoção do desenvolvimento econômico. Embora a identificação de alguns fatores comuns a todos os países que tiveram altas taxas… Continuar

Postado em 15 outubro 2008 às 8:47 ‚Äî

Emmanoel

"Redescoberta" de Minsky aponta para a especificidade histórica da economia

Tempos de crise são favoráveis ao reaparecimento de idéias de velhos economistas. Com esta última crise financeira global o caso é o mesmo: Minsky (que não tem NENHUM livro ainda traduzido no Brasil) está sendo reeditado nos EUA como um visionário capaz de compreender a natureza das crises financeiras. Talvez o que haja para se entender dessa redescoberta de Minsky em conjunto com essa crise é a relação profunda da teoria econômica com o ambiente político, econômico, cultural e institucional em… Continuar

Postado em 6 outubro 2008 às 14:59 ‚Äî 1 Comentário

Emmanoel

Professor Ricardo Carneiro comenta e explica o papel do Estado na crise financeira atual

O fim de uma era?
RICARDO CARNEIRO

HÁ CERCA de 30 anos, em outubro de 1979, a guinada radical da política monetária americana, comandada por Paul Volcker, marcou o início da reafirmação econômica americana no plano internacional, e uma nova forma de operação do capitalismo, constituindo um marco simbólico do início da globalização. Aos que estão presenciando, há um ano, os fatos dramáticos nos mercados financeiros, cabe perguntar se um deles ou o seu conjunto marca o fim de uma era.
A resposta… Continuar

Postado em 2 outubro 2008 às 15:26 ‚Äî

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Às 15:29 em 3 dezembro 2008, Rodrigo L. Medeiros disse...
Segundo afirmou Robert Skidelsky: “John Maynard Keynes viverá enquanto o mundo precisar dele. O que o mundo decidiu, 30 anos atrás, foi que não precisava mais de Keynes. Fora os economistas, ninguém acredita que a natureza humana seja aquela descrita pela economia, mas, sem o seu axioma da racionalidade, a economia não poderia existir como a ciência que ela alega ser. A grandeza de Keynes, e, na verdade, a sua singularidade como economista, é o fato de ele ter sido mais do que um economista. Além de ser um brilhante teórico e um grande administrador, ele foi o único poeta da natureza humana na área da economia” (Cf. O retorno de Keynes, 2008).

Skidelsky vai além: “A forma como Keynes entende a psicologia humana nos mercados tem três características, nenhuma das quais se encaixa no paradigma dominante da economia”.


Um abraço,

Rodrigo
Às 18:16 em 6 outubro 2008, Rodrigo L. Medeiros disse...
A Companhia das Letras está republicando livros do Celso Furtado e a Contraponto já lançou um livro baseado nos arquivos do grande pensador brasileiro, Ensaios sobre a Venezuela: subdesenvolvimento com abundância de divisas. Bem interessante...


Um abraço,

Rodrigo
Às 13:17 em 2 outubro 2008, Valeria Amorim disse...
Seja bem vindo e espero que colabore bastante!
 
 

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