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“O episódio eufórico é protegido e sustentado pela vontade dos envolvidos, a fim de justificar as circunstâncias que os tornam ricos. E é igualmente protegido pela vontade de ignorar, exorcizar ou condenar aqueles que exprimem dúvidas” – John Kenneth Galbraith (1908-2006).

Há alguns anos trás, John Kenneth Galbraith escreveu: “Em Wall Street, como em toda parte, há uma fé profunda no poder da magia. A magia preventiva requeria que um importante número de pessoas repetisse com o máximo de firmeza que isso [a queda do mercado] não aconteceria”. O livro ‘1929: o colapso da bolsa’, originalmente publicado em 1955, se tornaria um clássico.

Não há dúvidas quanto ao fato do momento presente ser outro. No entanto, a clássica descrição de Galbraith merece ser revisitada. O “apoio organizado”, por exemplo, captura o quadro da recente concertação em torno da redução das taxas básicas de juros realizada por vinte bancos centrais. Segundo Galbraith, “apoio organizado significava que os homens poderosos se organizariam para manter os preços dos valores em níveis razoáveis”. Irving Fisher, professor e especulador, declarou na época que a queda do mercado traduzia apenas a eliminação dos irracionais. Mesmo assim, o pânico não cederia.

Uma onda de fusões ocorreu na década de 1920. Cada nova fusão demandou, invariavelmente, algum novo capital e novas emissões de títulos. Tratou-se também de uma época de consolidação. Entre as motivações, destaca-se a eliminação ou regularização da concorrência. Thorstein Bunde Veblen (1857-1929) havia identificado tal tendência quando analisou a sabotagem que os capitães de indústrias e finanças operavam para manter os lucros estavelmente elevados pela via da regulação do output para impedir que a oferta ultrapassasse gradualmente a demanda.

À análise crítica de Galbraith não escapou o fato de que se há alguma diferença entre o oráculo caldeu e um economista moderno ela se deve ao “detalhe” de que as previsões de chuva ou seca do caldeu não influíam no clima. Os rumos da economia dependem, cada vez mais, das previsões dos tomadores de decisão. Conforme alertou a UNCTAD, em seu TDR 2008, as estratégias dos bancos comerciais e das outras instituições financeiras influenciam a concessão do crédito e a alocação de recursos na economia. A crítica de Galbraith encontra-se em consonância com os movimentos atuais da Casa Branca, incluindo o Federal Reserve System, e os bancos centrais do Primeiro Mundo. Quanto ao fim da magia, Galbraith afirmou: “o milagre da alavancagem permitia realizar essa operação relativamente sem custos ao homem situado no final de toda a cadeia de grupos”. O socorro de instituições financeiras integra esse imbróglio sociológico. O “incesto fiscal” no âmbito das grandes corporações mostrou-se um instrumento de estímulo da alavancagem.

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“De todos os mistérios da Bolsa de Valores nenhum é tão impenetrável quanto a razão de sempre haver um comprador para cada vendedor. Ninguém sabia, mas nunca é demais ressaltar, que para a eficácia da magia o conhecimento não é nem necessário nem presumido. Um banqueiro não precisa ser popular; de fato, um bom banqueiro em uma sociedade capitalista coerente deve, provavelmente, ser objeto da reprovação geral. As pessoas não desejam confiar seu dinheiro a um cidadão complacente, mas a um misantropo que pode dizer não. Entretanto, um banqueiro não deve parecer fútil, ineficaz ou vagamente tolo” – J. K. Galbraith.
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Não se pode dizer que a disciplina de mercado mostrou-se capaz de monitorar os abusos do sistema. Onde estariam as virtudes da auto-regulação do mercado no momento em que elas são mais necessárias? Pois bem, essa ainda é uma questão atual. A crise de 1929 testemunhou uma queda do prestígio dos banqueiros. Longe de ajudar a estabilizar o mercado, o pool de banqueiros de então estava buscando se livrar do papelório.

Em quais textos os teóricos do equilíbrio involuntário descrevem o fenômeno recorrente da privatização dos lucros e a socialização dos prejuízos numa economia de mercado? Não há sociedade sem poder e compulsão, tampouco um mundo onde a força, incluindo a persuasão do condicionamento no campo intelectual, não tenha qualquer função.

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3 Comentários

Emmanoel Comentário de Emmanoel em 10 outubro 2008 às 11:40
Excelente texto do Galbraith. O problema maior, creio, é quando a "magia" deixa de funcionar.

Esses episódios me lembram muito também o poder das "palavras mágicas" em certas culturas não-ocidentais. Essas palavras, em algumas situações, eram capazes de gerar algo real na sociedade -- o que entendo por esse "real" é a coordenação das ações e pulsões dos indivíduos segundo uma ordem social conceitual coerente simbolicamente. E, talvez, o significado grego da palavra "poiesis" (criação, fabricação) tenha também a ver com o poder da palavra de instaurar certos aspectos da realidade.

Parece ser o caso agora, quando palavras como "índice de confiança" e quando índices que povoam os computadores dos grandes bancos falham em instaurar certo real, incapacitadas de coordenar as ações dos indivíduos numa ordem simbólica socialmente coerente.

Abs

Emmanoel
Alexandre Cesar Weber Comentário de Alexandre Cesar Weber em 18 novembro 2008 às 22:30
Há mais mistérios entre o céu e a terra, do que nossa vã filosofia pode conceber,oh Horácio.
Seria engraçado, não fosse trágico, que o que realmente move a economia oculta é a fraude e a corrupção.
De que vale belas teorias se a praxis as desmente sonoramente. (é prá rimar mesmo) Minha vó já dizia: Por fora bela viola, por dentro pão bolorento.

A magia na economia existe, mas está fora do alcance do economista médio, pelo menos no meu ponto de ver. O Arthur C. Clarke escreveu que qualquer avanço científico muito adiante do seu tempo (vide metamaterias por ex.) é indistinguível da magia. E o Galbraith que a ciência econômica existe para fazer a Astrologia parecer respeitável.

Mas o problema é pior ainda, têm muita coisa por trás dos instrumentos e ferramentas econômicas que não são partilhados com o povo em geral, e, no meu modo de ver, com razão pois os instrumentos de poder necessitam se manter secretos. Assim, o véu e espesso, impenetrável e misterioso, mantido longe dos olhos submetidos.

O nosso problema, pelo menos no Brasil, não é a magia, mas a falta de representatividade nas políticas fiscais e monetárias que incidem sobre os cidadãos, tanto no âmbito interno como internacional.

Estamos no momento crítico do parto do novo dinheiro do milênio, as dores são inerentes à ação, como este dinheiro que será lançado é de suma relevância para o povo submetido, vêm dai a necessidade urgente de se conseguir voz no processo conceptivo.

Como estruturar uma moeda é trabalho de especialistas, deve obedecer a protocolos de convivência estritos e a uma filosofia benéfica.
Rodrigo L. Medeiros Comentário de Rodrigo L. Medeiros em 19 novembro 2008 às 15:36
WHAT IS MONEY?
By A. MITCHELL INNES
From The Banking Law Journal, May 1913.

Credit and State Theories of Money: The Contributions of
A. Mitchell Innes,
Ed. L. Randall Wray. Cheltenham, UK
and Northampton MA, USA: Edward Elgar Publishing Limited,
2004. 271 pp

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